Ano: 2019 Banca: IBFC Órgão: IDAM Prova: Analista - Redes e Comunicação de Dados
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Leia com atenção a história mítica “La Loba” escrita por Clarissa Pinkola Estés, com tradução de Waldéa Barcellos, para responder a questão.

      La Loba (Adaptado)
      Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.

      Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos. (...)

      O único trabalho de La Loba é o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de criaturas do deserto: o veado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.

      Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montanhas (...), leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e, quando consegue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.

      Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se forrar de carne, e que a criatura começa a se cobrir de pelos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.

      La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar. E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.

      Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar um rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é transformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.

      Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo — algo da alma.

(Fonte: ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos. Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Tradução Waldéa Barcellos. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1994, pg. 43-44.)
Sobre a interpretação da história, assinale a alternativa incorreta.
A
La Loba é uma personagem mítica que recolhe ossos, especialmente ossos de lobo e, quando consegue recolher e formar um esqueleto inteiro, por meio de seu canto, consegue atribuir vida novamente à criatura-lobo.
B
La Loba simpatiza com o que pode se perder no mundo, por isso, recolhe ossos abandonados em lugares como montanhas e leitos secos de rios e também parece esperar no deserto por pessoas perdidas que estejam à procura de algo.
C
As palavras “circunspecta”, “crocitar” e “cacarejar” são palavras que, na tessitura textual, são responsáveis por caracterizar La Loba como mais próxima dos animais que dos seres humanos.
D
As criaturas-lobo, revividas pelo canto de La Loba, ao saírem correndo pelo desfiladeiro, em algum momento de sua corrida, quer pela velocidade ou quer por terem sido tocadas por algo – como a água, um raio de sol ou de luar – transformam-se em mulheres.